Qualidade da água dos rios está comprometida pelos esgotos urbano e rural
As bacias hidrográficas da região sul do Espírito Santo estão perdendo volume de água a cada ano. A diminuição da precipitação e a pouca capacidade do solo em armazenar a água da chuva, devido ao desmatamento ocorrido na região, estão fazendo com que a pouca água que cai não fique retida nos lençóis freáticos que abastecem as nascentes.
O problema é apontado pelos presidentes dos comitês de bacia hidrográfica dos rios da região como um grande desafio a ser enfrentado pela população, setor produtivo e governo nos próximos anos para que alguns municípios não venham a ter problemas com o abastecimento. Segundo Paulo Breda, biólogo e presidente do comitê do rio Itapemirim, alguns dos 17 municípios abrangidos pela bacia já estão no que ele ilustra como “alerta vermelho”. São os casos de Alegre, Atílio Vivácqua, Muqui, Itapemirim, Marataízes e Presidente Kennedy.
Uma das consequências da queda do volume de água nos rios é a queda do volume de água que chega às suas fozes, fazendo com que o mar avance sobre os mananciais e aumente a salinidade da água. Essa situação pode ser notada em Itapemirim e Marataízes, que no último ano tiveram problemas de abastecimento devido ao alto teor de sal no local de captação da água que vai para a estação de tratamento. “Esse problema se acentua e fica mais evidente no período da seca” – avalia Breda.
O presidente do comitê do Rio Novo, Júlio Glauco Pontes da Silva, que também é servidor no Saae de Itapemirim, lembra que até mesmo pontos turísticos estão ficando comprometidos com o baixo volume de água na bacia, que nasce em Vargem Alta e passa por Rio Novo do Sul, Iconha, Itapemirim e Piúma. Ele cita como exemplo a lagoa de Guarandi, em Itapemirim, que ultimamente não tem sido reabastecida pelo rio. “Houve um decréscimo grande no volume, algumas nascentes estão praticamente extintas” – alerta.
Para Weriton Azevedo Soroldini, presidente do comitê do Itabapoana, que abrange os municípios de Dores do Rio Preto, Divino de São Lourenço, Apiacá, São José do Calçado, Guaçuí, Bom Jesus do Norte, Mimoso do Sul, Muqui e Presidente Kennedy, é necessário que sejam desenvolvidas ações que façam com que a água penetre no solo e permaneça nas propriedades. “A ocupação do solo na região teve suas consequências. Temos percebido a redução da precipitação, portanto, é importante ampliar a cobertura vegetal. Por outro lado, as atividades produtivas precisam ser sustentáveis” – sugeriu.
Esgoto também é um problema
Outro agravante na questão das bacias hidrográficas da região sul é a quantidade de esgoto urbano e rural que chega aos rios sem o tratamento adequado. Na bacia do Rio Novo, dos cinco municípios integrantes, apenas Itapemirim trata parte do seu esgoto. O presidente do comitê do Rio Novo chama atenção também para o fato do lixo ainda ser jogado diretamente no rio. “É um problema de educação dos moradores dos municípios, especialmente os ribeirinhos, falta conscientização, é muito lixo lançado nos rios” – disse.
Na bacia do Itabapoana a situação não é diferente. Dos nove municípios que a integram, apenas Dores do Rio Preto e Divino de São Lourenço foram incluídos recentemente em projetos de captação e tratamento de esgoto. Os demais não tratam de maneira adequada ou não possuem recursos próprios para realizar as obras necessárias à captação e construção das Estações de Tratamento de Esgoto (ETE). Como boa parte da área da bacia tem aptidão para o turismo, esse problema pode prejudicar essa atividade econômica, principalmente nos municípios localizados na região do Caparaó.
Na bacia do Itapemirim o problema se repete. Apesar de seu maior e principal município, Cachoeiro do Itapemirim, coletar e tratar o esgoto de forma adequada, os demais enfrentam problemas nessa questão. O resultado do diagnóstico realizado pelo Comitê de Bacia aponta que muita coisa ainda precisa ser feita para reverter essa situação. Numa escala estimada de 0 a 10, Paulo Breda, que também é presidente do Fórum dos Comitês de Bacia do Espírito Santo, estipula que a nota seria 6 para as águas do rio Itapemirim.
Planos de Bacia não saem do papel
A legislação que regula o setor hídrico no país, definida pela Política Nacional de Recursos Hídricos (Lei das Águas), estabelece que os comitês de bacia devem providenciar um plano de ações que garanta a qualidade e a quantidade das águas nos seus mananciais. Todavia, sem recursos próprios, os comitês da região não conseguem finalizar seus Planos de Bacia.
O Plano de Bacia do Rio Itapemirim é o que se encontra mais adiantado. Para tanto, foram cumpridas as etapa do diagnóstico e do Termo de Referência, que já foi apresentado ao Estado. O custo da execução do Plano, entretanto, estimado em 3,6 milhões de reais, não teve ressonância nas esferas governamentais.
Paulo Breda definiu que, caso o Plano de Bacia saia do papel, dois programas serão prioritários. Um para cuidar da reposição da cobertura vegetal na área da bacia e outro com atenção voltada para o tratamento de efluentes. “Temos que focar mais no reflorestamento, na recuperação das nascentes e no tratamento do esgoto” – enfatizou.
Na Bacia do Rio Novo, Glauco informa que o Plano de Bacia está em andamento, ainda em fase de diagnóstico. “Acredito que até dezembro estaremos com essa parte pronta” – previu. Por sua vez, na Bacia do Itabapoana, as discussões estão em fase embrionária. “Temos o desafio de envolver todos que tenham interesse direto ou indireto na questão dos recursos hídricos, mobilizar e mostrar a importância do rio, para mudar a nossa forma de nos relacionar com ele” – sugeriu Weriton Soroldini, que preside o comitê do Itabapoana.